Sábado, Janeiro 26, 2008





Ngungunhane, Gungunhana (1850-1906)

Ngungunhane ou Gungunhana como era conhecido pelos portugueses, nasceu cerca de 1850 no Império de Gaza, em Moçambique. O seu avô Sochangane (Manukuse) fizera a ocupação de um vasto território entre o rio Incomáti e a margem esquerda do Zambeze e do Oceano Índico até ao curso superior do rio Save, controlando uma população de mais de 500.000 habitantes. Pertencia aos nguni (vátuas), um dos ramos dos zulus, tendo a sua aldeia sagrada em Chaimite. A chegada dos nguni a esses territórios foi acompanhada do domínio de outros povos que já lá existiam, como os chopes, os tsongas, os vandaus e os bitongas. Depois da morte de Manukuse (1858), a guerra civil que opôs os dois herdeiros é ganha, com o apoio de autoridades portuguesas, pelo pai de Ngungunhane, Muzila. A sua sucessão, em 1884, foi igualmente problemática, conseguindo ascender ao poder Mudungazi (que mudou o nome para Ngungunhane), conhecido como o “Leão de Gaza”, que seria o senhor do segundo maior império de África no século XIX. A localização deste império tornava-o apetecível para as potências coloniais, regionais e para as companhias coloniais. Ngungunhane sobe ao poder na conjuntura da Conferência de Berlim e do renovado interesse das potências pelo continente africano. Portugal busca nessa época consolidar a sua precária ocupação colonial, nomeadamente em Moçambique, assinando para tal um tratado de amizade e vassalagem com Ngungunhane, em 1885. Aproveitando as rivalidades das potências europeias, Ngungunhane procura simultaneamente o apoio inglês. Na redifinição dos territórios africanos depois do Ultimatum, grande parte do império de Gaza fica no território de Moçambique. Em Agosto de 1894, os tsongas revoltam-se contra a autoridade colonial e colocam-se sob a protecção de Ngungunhane. Este recusa-se a entregar os chefes rebeldes aos portugueses, o que implicaria a sua submissão. Em 1895, tropas e colonos portugueses, sob a direcção do Comissário Régio António Enes, envolvem-se em confrontos com os ngunis, que se saldam numa sangrenta derrota destes últimos. Depois da derrota de Coolela, a 7 de Novembro de 1895, e de Mandlakasi, a 11 de Novembro, Ngungunhane refugia-se na aldeia sagrada de Chaimite. O major de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, recém nomeado governador do distrito militar de Gaza, dirige a sua coluna para Chaimite, aprisionando Ngungunhane. No entanto, nem mesmo esta vitória da autoridade colonial fez cessar a resistência em Gaza. A repressão portuguesa é duríssima. Em 1896 Ngungunhane, com algumas das suas mulheres e um filho, um tio e dois régulos, chega a Lisboa, onde é exposto à curiosidade popular. Atravessam Lisboa numa jaula, ficando em exibição no Jardim Botânico de Belém. Em Junho de 1896 foram enviados para a ilha Terceira nos Açores. Ngungunhane viveria onze anos no cativeiro açoriano, no forte de S. João Baptista. Tornado curiosidade local, é-lhe permitido caçar, faz cestos e aprende a ler e a escrever. É baptizado com o nome de Reinaldo Frederico Gungunhana.. Morreu a 23 de Dezembro de 1906, “baptizado, alfabetizado e alcólico” (PÉLISSIER, René). Mas só morrerá cinco anos depois do suicídio de Mouzinho de Albuquerque. Em 15 de Junho de 1985, por ocasião do décimo aniversário da independência de Moçambique, os restos mortais do antigo imperador de Gaza são entregues pelas autoridades portuguesas ao novo país africano, que organiza as exéquias solenes devidas ao seu herói nacional.

Eduardo Chivambo Mondlane

O Dr. Eduardo Chivambo Mondlane, 1º Presidente da FRELIMO e Arquitecto da Unidade Nacional, nasceu a 20 de Junho de 1920 na aldeia de Nwadjahane, no distrito de Mandlakazi, Província de Gaza. Até aos 12 anos pastoreou gado como centenas de outras crianças da mesma idade. O seu pai, Nwadjahane Mussengane Mondlane, fora regente de regulado, tendo morrido quando o pequeno Eduardo Mondlane tinha apenas 2 anos de idade. Sua mãe, Makungu Mazamusse Mbembele, foi quem o influenciou a ir para a escola, para dominar a cultura do homem branco. Eduardo Chivambo Mondlane foi o primeiro na família a ir para a escola, e a concluir em 1936 o ensino rudimentar. Nessa altura era difícil a uma criança africana ir além deste nível. Ao tencionar continuar os estudos no ensino primário, Eduardo Mondlane sofreu todas as frustrações e dificuldades criadas pelo regime para os indivíduos de cor que quisessem penetrar o sistema colonial. Com a ajuda de missionários suíços veio para a capital, a então cidade de Lourenço Marques, onde apesar das dificuldades impostas conseguiu fazer o ensino primário. A possibilidade de prosseguir no nível secundário foi gorada pelas autoridades coloniais que o impediram de se matricular em qualquer das escolas existentes. Entretanto, fez o curso de regente agrícola durante 2 anos na escola missionária de Khambine, em Inhambane, pertencente à Igreja Metodista. Em 1945, mercê de uma bolsa patrocinada por missionários, foi para a África do Sul, onde se matriculou na Douglas Laing Smith Secondary School, em Lemana, no norte do Transvaal. Aluno brilhante, Eduardo Mondlane ingressou 3 anos depois no Jan H. Hofmeyr School of Social Work, em Johannesburg, e em 1949 entrou para a Universidade de Witwatersrand, seguindo ciências sociais. A experiência directa das injustiças e da opressão colonial, levara entretanto o jovem Eduardo Mondlane a tomar a consciência da necessidade de lutar pela melhoria das condições do povo moçambicano. Daí que, mesmo estando a estudar na África do Sul, se tornou membro fundador do NESAM- Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique. Por causa da sua actividade política, pouco antes de fazer os exames do 2º ano da Universidade de Witwatersrand foi expulso da África do Sul pelo governo do Primeiro Ministro F. Malan, que subira ao poder começando a implementar o sistema de apartheid e intensificando a repressão contra o movimento de protesto. De regresso a Moçambique, Mondlane foi preso e submetido a interrogatório pela polícia política portuguesa, a PIDE. Consegui outra bolsa de estudos concedida pelo fundo “Phelps Stokes” de Nova Iorque, o que permitiu que fosse a Lisboa e se matriculasse na universidade local. Contudo, a constante perseguição da PIDE contra si e contra outros estudantes das colónias portuguesas que se encontravam em Lisboa, obrigou Mondlane a procurar outro país para continuar com os estudos. Assim, foi para os Estados Unidos da América, onde, de 1951 a 1956 frequentou a Oberlin Colege e a Northwestern University. Nestas escolas superiores obteve sucessivamente os graus de Bacharel, Licenciado e Doutor em Sociologia e Antropologia. Em 1951 conheceu Janet Rae Johnson, com que viria a casar e ter 3 filhos. Em 1957 as Nações Unidas convidaram o Dr. Eduardo Mondlane a trabalhar no seu Departamento de Protectorados, como investigador ligado aos territórios de Tanganyika (Tanzânia), Sudoeste Africano (Namíbia), e Camarões. Na qualidade de funcionário da ONU, o Dr. Eduardo Mondlane ia mantendo dentro do possível uma ligação com os acontecimentos em Moçambique. E , 1961, aproveitando o gozo de férias, visitou Moçambique e pôde contactar a realidade directamente e auscultar as massas sobre a questão da independência do jugo colonial. Depois dessa viagem o Dr. Eduardo Mondlane ficou convencido da necessidade e da possibilidade de organizar um movimento de libertação nacional. Assim, deixou as Nações Unidas pra regressar a África. O Dr. Julius Nyerere, que conhecera Mondlane nas Nações Unidas, prontificou-se a apoiar os esforços para a criação de um movimento unido para libertar Moçambique, e Mondlane prossegui contactos com os grupos nacionalistas que se tinham formado e se encontravam dispersos nos países vizinhos, sem no entanto aceitar integrar nenhum deles individualmente. Pelo contrário trabalhou com os seus compatriotas no sentido de convencê-los da necessidade imperiosa da unidade para vencer o colonialismo. Em 1962 teve lugar em Dar-es-Salaam uma conferência de grupos nacionalistas moçambicanos como a MANU, UNAMI e UDENAMO. Todos estes grupos concordaram em fundir-se numa única organização, a Frente de Libertação de Moçambique – FRELIMO- com o Dr. Eduardo Chivambo Mondlane como seu Presidente. Dois anos depois, a 25 de Setembro de 1964, a FRELIMO iniciou a luta armada de libertação nacional. Sob a orientação do Presidente Mondlane a FRELIMO estabeleceu as primeiras zonas libertadas em Moçambique, onde começou a implementar um novo sistema de desenvolvimento político, económico e social. Foi neste contexto que começaram a surgir e agudizarem-se contradições de princípio entre aqueles que dentro da FRELIMO pretendiam pura e simplesmente substituir-se ao colono, e a linha justa defendia não só a independência de Moçambique como a eliminação da exploração do homem pelo homem. O Dr. Eduardo Mondlane estava à frente desta linha, a favor da unidade nacional e do combate interno contra o racismo, o tribalismo e o regionalismo, e pela emancipação da mulher. No II Congresso da FRELIMO, realizado em 1968, nas zonas libertadas, a linha de Mondlane foi compartilhada por quadros como Samora Machel, Joaquim Chissano, Marcelino dos Santos, Alberto Chipande e pela esmagadora maioria dos delegados. Face ao desenvolvimento da luta armada, ao surgimento de uma nova realidade social nas zonas libertadas, e à derrota das tentativas de minar a FRELIMO por dentro, o colonialismo português identificou no Dr. Eduardo Mondlane o seu principal alvo, na base do raciocínio de que a sua eliminação física podia deter o avanço para a independência. Foi assim que o inimigo assassinou o Dr. Eduardo Chivambo Mondlane através de uma bomba armadilhada num livro enviada pelos serviços secretos portugueses, contando com a cooperação de forças retrógradas no seio da FRELIMO. A 3 de Fevereiro de 1969, de manhã, na capital da Tanzânia, Dar-es-Salaam, o 1º Presidente da FRELIMO morreu quando a bomba explodiu ao abrir o livro. A morte do Dr. Eduardo Mondlane foi um golpe profundo para o movimento de libertação em Moçambique, mas não conseguiu quebrar a determinação do Povo moçambicano, da FRELIMO e dos seus quadros na luta pela independência e pelos objectivos do seu 1º Presidente.

              
                                                     Samora Moisés Machel
 

Filho de um agricultor relativamente abastado, Mandande Moisés Machel, da aldeia de Madragoa (actualmente Chilembene), Samora entrou na escola primária com 9 anos, quando o governo entregou a “educação indígena” à Igreja Católica. Quando terminou a escola primária, o jovem de cerca de 18 anos quis continuar a estudar, mas os padres só lhe permitiam estudar teologia e Samora decidiu ir tentar a vida em Lourenço Marques. Teve a sorte de encontrar trabalho no principal hospital daquela cidade e, em 1952 começou o curso de enfermagem. Em 1956, foi colocado como enfermeiro na ilha da Inhaca, em frente da cidade de Maputo, onde casou com Sorita Tchaicomo, de quem teve quatro filhos, Joscelina, Edelson, Olívia e Ntewane. Neto de um guerreiro de Gungunhana, Samora Machel foi educado como nacionalista e, como estudante, foi sempre um “rebelde” e tomou conhecimento dos importantes acontecimentos que se davam no mundo: a formação da República Popular da China, com Mao Tse-Tung, em 1949 a independência do Gana, com Kwame Nkrumah, em 1957, seguida pela de vários outros países africanos. Mas foi o seu encontro com Eduardo Mondlane de visita a Moçambique, em 1961, que nessa altura trabalhava no Departamento de Curadoria da ONU, como investigador dos acontecimentos que levavam à independência dos países africanos, que juntamente com a perseguição política de que estava a ser alvo, levou à decisão de Samora de abandonar o país, em 1963 e juntar-se à FRELIMO, na Tanzania. Para lá chegar, teve a sorte de, no Botswana, encontrar Joe Slovo (que, mais tarde, foi Presidente do Partido Comunista Sul-Africano) com um grupo de membros do Congresso Nacional Africano-ANC, que ofereceu “boleia” a Samora num avião que tinham fretado. Dado que nessa altura, já a FRELIMO tinha chegado à conclusão que não seria possível conseguir a independência de Moçambique sem uma guerra de libertação, o jovem enfermeiro Samora Machel foi integrado num grupo de recrutas receber treino militar na Argélia. No seu regresso à Tanzania, ele tornou-se imediatamente num comandante. Em Novembro de 1966, na sequência do assassinato do então Chefe do Departamento de Defesa e Segurança da Frelimo (o órgão que comandava a luta armada), Filipe Samuel Magaia, Samora foi nomeado chefe do novo Departamento de Defesa, com as mesmas funções do anterior, enquanto Joaquim Chissano foi nomeado chefe do Departamento de Segurança, tratando dos problemas de espionagem que estavam a minar aquele movimento de libertação. Em 1967, Samora Machel criou o Destacamento Feminino(DF) para envolver as mulheres moçambicanas na luta de libertação e, em 1969 casou-se oficialmente com Josina Muthemba, uma guerrilheira (com ensino secundário) do DF, de quem teve um filho, Samora Machel Jr. Em 1968, foi reaberta a “Frente de Tete”, que foi a forma como Samora respondeu a dissidências que se verificaram dentro do movimento, reforçando a moral dos guerrilheiros. Em 3 de Fevereiro de 1969, Eduardo Mondlane, então Presidente da FRELIMO, foi assassinado com uma encomenda-bomba. Uria Simango, o Vice-Presidente, assumiu a presidência, mas o Comité Central, reunido em Abril, decidiu rodeá-lo de duas figuras – Machel e Marcelino dos Santos, formando um triunvirato. Simango, em Novembro desse ano, publicou um documento dando apoio aos antigos dissidentes (que não tinham sido ainda afastados do movimento) e acusando Samora e vários outros dirigentes de conspirarem para o matar. Em Maio de 1970, noutra sessão do Comité Central, Simango foi expulso do movimento e Samora Machel foi eleito Presidente da FRELIMO, com Marcelino como Vice-Presidente.




PREPARATIVOS PARA A INDEPENDÊNCIA

Nos anos seguintes, 1974, Samora conseguiu organizar a guerrilha de forma, a neutralizar a ofensiva militar portuguesa, comandada pelo General Kaúlza de Arriaga, um homem de grande visão militar, a quem foi dado um enorme exército de 70.000 homens e mais de 15.000 toneladas de bombas, mas também organizar as Zonas Libertadas, que abrangiam cerca de 30 % do território. Para além disso, Samora dirigiu uma ofensiva diplomática, em que grangeou apoios, dos tradicionais aliados socialistas, mas inclusivamente do Papa, que era um tradicional aliado de Portugal. A seguir ao golpe-de-estado militar de 25 de Abril de 1974, em Portugal, que tinha tido como causa imediata a incapacidade de resolver a questão colonial pela força das armas, o então Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Mário Soares, encabeçou uma delegação a Lusaka, em que propôs à FRELIMO um cessar-fogo e a realização dum referendo para decidir se os moçambicanos (certamente, incluindo os seus habitantes de origem portuguesa) queriam a independência. Samora recusou, afirmando que ''"A Paz ? inseparável da independência"'' e expandiu as operações militares, contando com a fraqueza do exército colonial. Em Julho, cercou um destacamento português que se rendeu; este facto, muito propagandeado pela imprensa, levou Lisboa a mudar de atitude e, em 7 de Setembro de 1974, foram assinados os Acordos de Lusaka entre o governo português (cuja delegação era então dirigida por Melo Antunes, Ministro sem Pasta), em que se decidiu que no mesmo mês se formaria um governo de transição, integrando elementos nomeados por Portugal e pela FRELIMO, e que a independência teria lugar a 25 de Junho de 1975. A FRELIMO decidiu que o Primeiro Ministro do governo de transição não devia ser Samora, mas Joaquim Chissano, ainda chefe do Departamento de Segurança. Entretanto, Samora fez várias viagens aos países socialistas e a países vizinhos de Moçambique, para agradecer o seu apoio durante a luta armada e solicitar apoio para a construção do Moçambique independente. Durante uma sessão do Comité Central, realizada na praia do Tofo-Inhambane e dirigida por Samora, foi aprovada a Constituição da República Popular de Moçambique e decidido que Samora Machel seria o Presidente da República.


A PRESIDÊNCIA DE SAMORA MACHEL


No plano interno, Samora sempre assumiu uma política populista, tentando utilizar nos meios urbanos os métodos usados na guerrilha e angariar o apoio do povo para o desenvolvimento do país em bases socialistas. Menos de um mês depois da independência, Samora anunciou a nacionalização da saúde, educação e justiça; passado um ano, a nacionalização das casas de rendimento, criando a APIE (Administração do Parque Imobiliário do Estado), que alugava as casas com rendas que estavam de acordo com o rendimento do agregado familiar; lançou grandes programas de socialização do campo, com o apoio dos países socialistas, envolvendo-se pessoalmente numa campanha de colheita do arroz. Conseguiu ainda o apoio popular, principalmente dos jovens, para operações de grande vulto, tais como o recenseamento da população, em 1980, e a troca da moeda colonial pela nova moeda, o Metical, no mesmo ano. Outras políticas populares foram as “ofensivas” a favor do aumento da produtividade e contra a corrupção, geralmente anunciadas em grandes comícios, com grande participação da população. No entanto, poucas destas campanhas tiveram êxito e, em parte, levaram ao abandono do país de grande número de residentes de origem estrangeira, o que provocou a paralisação temporária de muitas empresas e, mais tarde, por falta de capacidade de gestão, ao colapso de muitos sectores, tais como a indústria têxtil, metalúrgica e química. Outras medidas impopulares foram o encarceramento em “campos de reeducação” das Testemunhas de Jeová, dos “improdutivos” e das prostitutas e a colocação em locais remotos de jovens com cursos superiores; estas medidas tinham como alegado objectivo o desenvolvimento de regiões onde havia pouca população. Na frente externa, Samora sempre seguiu uma política de angariar amizades e apoio para Moçambique, não só entre os “amigos” tradicionais, os países do bloco soviético e unindo os países vizinhos numa frente de integração regional, a SADC, mas até entre os seus “inimigos”, tendo sido inclusivamente sido recebido (embora com frieza) por Ronald Reagan e assinado um acordo de boa-vizinhança com Pieter Botha, o presidente da África do Sul dos últimos anos do apartheid (o Acordo de Nkomati). Apesar disso, Samora não conseguiu suster a guerra que, iniciada logo a seguir à independência pelos vizinhos regimes racistas (a África do Sul e a Rodésia de Ian Smith), se tornou numa verdadeira guerra civil que durou 16 anos, provocou cerca de um milhão de mortos e cinco milhões de deslocados e destruiu grande parte das infra-estruturas do país. O insucesso da sua política de socialização e a guerra levaram a um colapso económico e Samora, nos últimos anos, teve de abrandar a sua política de índole comunista, permitindo que os “quadros” tivessem acesso a bens que o comum dos cidadãos não tinham, encetando conversações com a RENAMO e, finalmente, organizando acordos com o Banco Mundial e FMI, no sentido de estancar a guerra e relançar a economia. Não conseguiu, no entanto, ver realizados os seus propósitos, uma vez que, em 19 de Outubrode 1986, quando se encontrava de regresso duma reunião internacional em Lusaka, o Tupolev 134 em que seguia, junto com muitos dos seus colaboradores, se despenhou em Mbuzini, nos montes Libombos, em território sul-africano, mas perto da fronteira com Moçambique. O acidente foi atribuído a erros do piloto russo, mas ficou provado que este tinha seguido um radio-farol, cuja origem não foi determinada; isto levou a especulação sobre a possível cumplicidade do governo sul-africano, mas nunca se conseguiu provar.






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JOAQUIM CHISSANO
 

Político e general moçambicano, de nome completo Joaquim Alberto Chissano, nascido a 22 de Outubro de 1939, em Malehice, na província de Gaza. Iniciou os seus estudos na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 1960, mas, por razões políticas, mudou-se para França no ano seguinte para continuar os seus estudos. Foi nesse país que, juntamente com outros estudantes, formou a União Nacional dos Estudantes de Moçambique. Dedicado à causa da independência do seu país, abandonou os estudos e participou na fundação, em 1962, da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), na Tanzânia, e um ano depois foi eleito para o Comité Central do movimento. Desempenhou até 1965 a função de secretário do primeiro presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane; exerceu o cargo de professor na comunidade do movimento e foi eleito para os comités Político Militar e Executivo. Após a revolução em Portugal, a 25 de Abril de 1974, em Setembro do mesmo ano Joaquim Chissano ocupou a função de Primeiro-Ministro do Governo de Transição até 25 de Junho de 1975, data da proclamação da independência de Moçambique. No primeiro Governo do país, ocupou a pasta dos Negócios Estrangeiros (1975-1986), sob a presidência de Samora Machel. Entretanto, em 1977, foi eleito para o Comité Central e para o Comité Político Permanente da FRELIMO, no seu terceiro congresso. Após a morte de Samora Machel em 1986, foi eleito Presidente do Partido Frelimo e, a 6 de Novembro, Presidente da República. Introduziu um Programa de Reabilitação Económica em 1987 e, após a queda do comunismo na Europa, abandonou a doutrina marxista-leninista. Permitiu a abertura ao multipartidarismo através da revisão da Constituição em 1990. A 4 de Outubro de 1992 assinou um acordo de paz, juntamente com Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), pondo termo a dezasseis anos de guerra civil no país. Nas eleições presidenciais de 1994 foi investido como presidente da República, cargo para o qual foi reeleito nas eleições de 1999. Nesse mesmo ano, tornou-se Presidente da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e Vice-Presidente da Socialista Internacional. Em 2004 sucedeu-lhe no cargo de presidente da República Armando Guebuza, secretário-geral da FRELIMO, que venceu as eleições.
É membro de honra de várias organizações e recebeu vários prémios no país e no estrangeiro. Recebeu o título Honoris Causa em Economia atribuído pela Universidade de Coimbra (1999).





Escrito por Albertino Silva em 23:03:28 | Link permanente | Comments (0) |
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